terça-feira, 28 de outubro de 2008

Na calada da noite. Fragmento 2

Ele riu. Romantizar a realidade sempre lhe parecia extremamente medíocre, mas ele não conseguia resistir. Mesmo sabendo que não haveria dor alguma, pois seu trabalho era monótono, sem graça. Bem diferente das histórias que lera na infãncia e que o fizeram optar pelo ramo de detetives. Quer dizer, essa opção era mais profundamente motivada pela falta de emprego, do que por qualquer sonho pueril, mas como dito antes, ele gostava de fantasiar a vida.

Um farol vermelho. Distração. Lembranças de fatos e fantasias. O som de pneus deslizando no asfalto, enquanto freiam desesperados. Era um carro, vindo da esquerda. Quase batera. Tudo embaralhado. Nem palavrões que o outro motorista gritava faziam sentido.

Uma centena de metros depois, ele para. Desce do carro, tonto, senta-se no passeio e respira. Por muito pouco ele quase morreu, quase morreu de verdade. A confusão desaparece num segundo, jogada para fora junto com o vomito, que salta de sua boca para o asfalto frio.

Minutos depois, de volta à direção. Ele ria novamente. Quase morrera, mas deveria saber que não morreria. Não de forma tão pouco heróica, tão pouco paladinesca. Riu, mas sentiu, na boca, os resquícios do gosto amargo, que nem mesmo o mais forte drops de hortelã poderia encobrir.

...

domingo, 19 de outubro de 2008

Na calada da noite. Fragmento 1

Fitou o relógio. Meia-noite e trinta e dois. Mais de meia hora de atraso. Ele não iria esperar. Vestiu a blusa que trazia, bebeu o último gole de refrigerante e saiu.

Ele não bebia nada alcoólico naquela noite, ou melhor, em noites como aquela. Quando estava deprimido gostava de ficar sóbrio, ajudava a pensar melhor. Pensar, algum sábio morto já disse que pensar é o ato mais masoquista do ser-humano. Se não disse, deveria ter dito.

Abriu a porta do carro e entrou. Nada muito especial. Por ai, todas as noites, há dezenas de carros sendo entrados pelas pessoas. Ou talvez, o que há de especial esteja ai. A vida não permite protagonistas, apenas coadjuvantes, todos juntos, todos separados, todos perdidos.

Enquanto acelereva o veículo e mudava a marcha, ele se questionava. Por que ela se atrasara tanto? Ela nunca se atrasava, ainda mais quando sabia que ele estava disposto a pagar. Algo provavelmente acontecera. Mas não era problema, nem culpa dele. De fato, como a maioria de nós, ele tinha dificuldade em descobrir onde começava e onde acabava sua culpa.

Não importava. Sem os carinhos da puta que era, antes de tudo, sua amiga, ele estava tenso. Nada de prazer antes da dor. A gente sempre busca o prazer, antes da dor.